segunda-feira, 1 de julho de 2013

A história que surge nos dentes encontrados no Porto Maravilha



Resíduos ajudam a contar os hábitos do país na época da escravidão

Pedro Marcelino Ribeiro de Souza

Quem iria adivinhar que os trabalhadores que desembarcavam no porto traziam sua cultura até nos dentes. Com as recentes obras para a construção do Porto Maravilha, os arqueólogos encontraram alguns tesouros enterrados há tempos sob os prédios antigos.  Principalmente debaixo do antigo prédio do Arsenal da Marinha. No local, os arqueólogos estão coletando, limpando e catalogando muitas relíquias. Mais de 80 mil peças foram encontradas nas escavações, azulejos, pedaços de talheres, solas de sapatos, canhões e dentes. Por incrível que pareça, os dentes são enorme importância e, por isso, foram doados para o Museu Odontológico Salles Cunha e já podem ser encontradas nas visitas ao local.
Os mais distraídos passam pelo número 85 da Rua Barão de Sertório, no Rio Comprido, sem saber que lá dentro se esconde um pedaço do Brasil.  Pouca gente nota que ali no sobrado funciona o museu. Estrategicamente posicionado, fica ao lado da Associação Brasileira de Odontologia (ABO). Para visitar o local é preciso agendar previamente pelo telefone do site: o museu só funciona das 13 às 15 horas, de segunda a sexta. 
Cadeira de dentista do Museu Odontológico Salles Cunha

Fizemos uma visita guiada com a dentista Márcia Nascimento que nos explicou um pouco da história do lugar. Logo na entrada daria facilmente para confundir o lugar com museu de artefatos de torturas antigas, pelos antigos instrumentos odontológicos. De moderno, só as portas, que não parecem pertencer ao lugar.


Márcia explicou que hoje é possível descobrir o que os escravos comiam, por conta dos avanços da ciência. Como a escovação era praticamente inexistente na época, os dentes ainda guardavam alguns restos de alimentos. Para a dentista, é mais fácil descobrir o que eles não comiam. Como os alimentos não eram industrializados, não havia erosão nos dentes, como existe atualmente por conta de refrigerantes e similares. Apesar da higiene precária, os escravos comiam alimentos crus e fibrosos, como raízes, o que fazia uma limpeza natural nos dentes.
Os escravos não tinham muito acesso a doces e alimentos com mais sacarose,  que eram consumidos, quase que exclusivamente, pelos senhores de Engenho e suas famílias. Os empregados não podiam comer quase nenhuma fruta – havia represálias – mas, felizmente, davam a eles algumas maçãs. O que pouca gente sabia na época é que as maçãs são uma espécie de escova de dente da natureza. Comer coisas duras ajudava na mastigação e na musculatura perioral (à volta da boca) pelo fato de ter que mastigar repetidas vezes exercendo assim bastante força nos alimentos.
Os escravos, ao serem obrigados a comer raízes, como aipim,  conseguiram conservar os dentes já que não faziam qualquer tipo de escovação. A prática começou com os senhores que  limpavam os dentes com um pano. Para mantê-los limpos,  alguns deles mascavam fumo de rolo, prática corriqueira em alguns lugares do Nordeste, ainda hoje.
Os escravos que tinham mais cáries antigamente eram aqueles que serviam no canavial, explicou a dentista. Porque eles entravam em contato direto com a cana-de-açúcar. O problema principal não é o consumo da cana e nem a quantidade, mas sim a frequência do consumo. Antigamente era difícil de medir a produção dos canaviais e parte era consumida pelos próprios trabalhadores.
Quando o escravo tinha cárie, ou qualquer tipo de problema de saúde, dificilmente era atendido. Nos casos excepcionais,  o “problema” era resolvido com extração com um alicate gigante, que está exposto no museu.  Anestesia? Para diminuir a dor dos escravos eles bebiam ou cheiravam diversas bebidas, a mais comum era a cachaça. Havia também o éter, pouco comum nos trabalhadores. Quando não eram atendidos, os escravos tinham que escolher entre viver com a dor, ou retirar o dente sozinho.
O museu que conta a história dos dentes e dentistas do Brasil continua aberto, assim como os buracos das escavações da região do porto, atrás de “novas” descobertas. É incrível como o passado tem várias formas de nos fazer sorrir.

Os dentistas-sangradores de acordo com Debret


História dos dentes

Os dentes tiveram um papel importante na história nacional. No início do século XVIII (entre 1709 e 1720) surgiu no Brasil uma corrida pelo o ouro. O ouro era abundante no interior da Capitania de São Paulo, em Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso. A mão de obra daquela época era formada quase 100% por escravos.
Os trabalhadores das minas de ouro eram submetidos às piores condições de trabalho possíveis. Com o passar dos tempos os escravos começaram a roubar parte do ouro que garimpavam. Onde eles escondiam o furto? Nos dentes. Colocavam uma pepita entre um dente e outro e iam acumulando um montante para conseguir comprar a tão sonhada carta de alforria, que também podia ser doada pelos senhores de engenho.
Naquela época, o Brasil adotava o padrão europeu de odontologia. Quando era preciso fazer uma dentadura para alguém, a prótese era esculpida em marfim ou osso. Quando alguém perdia um dente, era ainda pior. Acredite-se ou não, se alguém perdesse um dente, no lugar era colocado dente de outra pessoa, ou, ainda, de um animal, como o cachorro. Eles eram colocados e retirados na boca através de molas.

Os dentistas, naquele tempo, eram formados, em sua maioria, por barbeiros e sangradores (uma espécie de cirurgião antigo). Eles aprendiam o oficio com alguém mais experiente e tinham que provar suas habilidade dois anos depois.

Pretos novos de um velho passado


A realidade por trás das escavações onde foram encontrados restos mortais de escravos e objetos utilizados por eles

Luciana Andreatta



                  A remodelação de bairros como a Saúde e da Gamboa nos trouxe à tona algo que estava o tempo todo bem abaixo dos nossos olhos. Ou melhor, dos nossos pés. A casa na Rua Pedro Ernesto, 36, na Gamboa, onde moram Mercedes e Petrúcio Guimarães dos Anjos foi o berço das descobertas, em 1966, tão antagônico quanto o que foi encontrado: uma necrópole de negros chamada Cemitério dos Pretos Novos.
                  O comércio de escravos, muitas vezes, acontecia nas próprias ruas. O mercado em si  era uma aglomeração de vendedores que se encontravam entre o Outeiro da Saúde e o Morro do Livramento. Também se  podia ter acesso através do caminho do Valongo, saindo dos fundos da cidade em direção ao mar, como explica o historiador Cláudio Honorato em seu livro O Mercado do Valongo e o Comércio de Escravos Africanos, de 2011. Antes de serem postos à venda, os escravos eram levados ao Lazareto, uma armazém na Gamboa onde eram lavados, vestidos com trapos novos e de onde seguiam para os pontos de venda.
                  Antes de desembarcarem na região do Valongo, iam para a Ilha de Jesus, na Baía de Guanabara, onde ficavam de quarentena. Em 14 de julho de 1810, no entanto, foi solicitado ao Príncipe Regente, que se criasse mais uma parada de tratamento de escravos, que viesse a facilitar o trabalho dos traficantes. Nessa época o Lazareto se instalou. Curiosamente, o ponto de parada no meio do caminho entre o armazém e os pontos de venda era, justamente, o cemitério dos pretos novos.
                  A quarentena não lembrava nada além do próprio navio em que vieram, antes da mudança para perto do Valongo. Negros contraminados acabavam por contaminar a tripulação. Era grande o medo do prejuízo, mas ainda o medo de que o escorbuto, sarampos e bexigas d’água poderiam causar.
                  Os mortos não tinham direito a caixões. Geralmente nus, eram transportados por dois negros. Não tinham covas também. O que os separava do mundo dos vivos era apenas um punhado de terra. Tão pouca, que havia relatos de ossos que pulavam enquanto carroças passavam. Além disso,  os mortos exalavam um cheio quase insuportável. Alguns registros de óbitos na Igreja de Santa Rita deram margem de pesquisa aos arqueólogos de 4 mil escravos enterrados entre 1824 e 1830. Nesses registros, raros para a época e para sua importância, vinham os nomes e o tipo de navio em que vieram.

      Junto com os ossos, foram encontrados contas de vidro, adornos e a cultura material das cidades dos séculos XVIII e XIX. Do Cemitério dos Pretos Novos, contudo, não se podia pesquisar a vida dos escravizados, visto que lá estavam sepultados apenas os que haviam acabado de chegar da África. Os rituais eram tristes. E muito próximo do Lazareto: os amigos dos mortos podiam ver os sepultamentos.
Sapato encontrado durante as escavações na Gamboa, no Cemitério dos Pretos Novos. Foto: Renzo Gostoli
 

Trapiche Gamboa: da degradação ao sucesso


Com a modernização da Zona Portuária, antigo armazém é repaginado e se torna casa de show no Centro boêmio do Rio
Beatriz Garcia

Os trapiches originalmente são máquinas que foram muito utilizadas durante o período do engenho no Brasil. A máquina funcionava com tração animal que, por algumas vezes, era substituída por tração humana. Os escravos eram colocados nos lugares dos bois e giravam um em cada braço de força para moer a cana e dela extrair o caldo. O líquido que dela saía era mais utilizado para a fabricação de cachaça do que ser usado como açúcar.
                Mais tarde, os trapiches serviram como casas de suporte e armazenamento de produtos para importação e exportação de mercadoria na Zona Portuária da cidade. Os trapiches funcionavam também como pontos de encontro nos centros das cidades, devido a sua localização. Comerciantes de diversos lugares se reuniam ali para trocar informações, comer, beber, receber as mercadorias ou estocá-las para serem exportadas.
                No Rio de Janeiro, o trapiche que mais prosperou foi o Gamboa. Localizado na Zona Portuária, o estabelecimento foi muito importante na época da construção do Porto do Rio. Próximo ao Morro da Conceição, ao Cais do Valongo e à Pedra do Sal, situava-se próximos a outros armazéns onde escravos eram comercializados. Com a proibição e a libertação dos escravos, toda essa região ficou degradada e foi esquecida.
                A revitalização
A primeira grande reforma que a Zona Portuária sofreu foi durante o governo de Pereira Passos, no início do século passado. As obras acabaram isolando essa parte da área nobre do Centro do Rio. Não foi diferente com a abertura da Avenida Presidente Vargas, nos anos 40. A área voltou a ser desprestigiada mais uma vez.
 Com a vinda de grandes eventos para a Cidade Maravilhosa, um projeto de revitalização do Porto e adjacências precisou ser criado. Uma cidade que se propõe a receber os Jogos Olímpicos e a Copa do Mundo não poderia ter uma de suas portas de entrada tão degradadas. O projeto Porto Maravilha foi criado através de uma lei de operação urbana. A obra consiste em modernizar e melhorar as condições de vida da população que reside na região bem como tornar o espaço um ponto turístico. A principal ação será a derrubada da Perimetral e a construção de um túnel de aproximadamente 4km para substituir o elevado. 
Com a informação de que a área seria modernizada, a empresária Cláudia Melo Alves decidiu empreender um novo projeto. Em 2004, ela inaugurou uma casa de samba, o Trapiche Gamboa.  Em vez de reformar o armazém original para torná-lo mais atraente, Cláudia resolveu restaurá-lo. Durante a obra, ela se surpreendeu ao jogar ácido no chão. Havia ali um belo piso de azulejo escondido durante muitos anos embaixo de camadas de tinta.

Hoje, o Trapiche Gamboa é um sucesso. O clima rústico da casa de samba faz qualquer pessoa se sentir à vontade para dançar a noite toda. Cláudia conseguiu criar um ambiente que ela mesma gostaria de frequentar. A programação da casa é voltada para o público que gosta de samba e cultura.
Fachada do Trapiche Gamboa. Foto: Divulgação 

  Um samba democrático

O samba de raiz virou moda entre os jovens novamente.  A galera da Zona Sul, que antes só frequentava as boates no bairro, trocaram as músicas eletrônicas pelos sambas de Chico Buarque, Tom Jobim e Baden Powel. Músicas como “Trem das onze” e “Deixa a menina” são os preferidos do público do Trapiche Gamboa.
- Nada de pagode. Eu venho pra cá para ouvir samba de raiz. Eu adoro o clima desse lugar, me sinto em casa. Eu trouxe muitos amigos e agora esse é o nosso point. Muitos deles nem gostavam de samba antes, já até conhecemos a dona de tanto que a gente vem - disse a advogada Mariana Freitas.
            Já para o músico Paulinho Marques, do grupo Sem Telha, que se apresenta às sextas-feiras, o público do Gamboa é muito animado e diversificado.
- Aqui a gente vê de tudo, tem jovem, velho, preto, branco. Parece que o lugar é mágico. Quem entra no Trapiche não consegue ficar parado. A letra da música - “quem não gosta de samba bom sujeito não é” - se reflete aqui. Quem não gosta de samba fica lá, do lado de fora. Aqui é berço do samba, berço de bambas.

            A programação é a mais variada possível dentro desse universo. A casa funciona de terça a sábado e o valor do ingresso varia de acordo com a programação, entre R$ 10 e R$ 20, referentes ao couvert artístico. 
O público do Trapiche Gamboa gosta de samba de raiz

A história desenterrada


O Instituto dos Pretos Novos quando ainda era apenas um cemitério de escravos

Por Catarina Dorighetto

Durante anos, pessoas passaram pela Rua Pedro Ernesto número 36, na Gamboa, e não imaginavam que ali estava enterrado um pedaço importante da nossa história, numa casa construída no início do século XVIII. Os donos, Ana Maria de La Merced e Petrúcio Guimarães, decidiram reformar a casa e durante as escavações, em 1996, encontraram um secular e enorme sítio arqueológico de escravos. Ana Maria conta, em entrevista à Prefeitura do Rio, que ficou bem assustada quando viu todos aqueles ossos.
- Compramos o imóvel em 1990 e nos mudamos para cá. A casa era bem antiga e precisava de reformas estruturais. Em 1996, iniciamos obras para uma nova laje. Ao cavar, encontramos os ossos. Ficamos assustados. Na época, minhas filhas eram adolescentes e não sabíamos o que fazer. Primeiro achamos que haviam enterrado uma pessoa no quintal. Como já conhecíamos a história da Região Portuária, do Cais do Valongo, do Lazareto e do Cemitério, à medida que apareciam outros ossos, percebemos que este poderia ser o tal cemitério – afirma Ana Maria.
Merced dirige o Instituto dos Pretos Novos

O cemitério, que depois se descobriu que se chamava Cemitério dos Pretos Novos, era para os negros que não conseguiram resistir à viagem de navio negreiro, por doenças adquiridas durante o trajeto ou maus tratos nos alojamentos e que morriam antes de serem vendidos. Junto aos ossos, foram achados artesanatos de diversos materiais da época.
Cientes da importância do lugar criaram o Instituto dos Pretos Novos (IPN), que visa a pesquisar e preservar a história e cultura afro-brasileira. Ana Maria conta que achou essa descoberta ainda mais importante, porque não havia nada nos livros de história que contasse sobre esses pretos novos.

 - Pesquisei na internet, em livros de história e nada. Nenhuma informação. Percebi certa negação sobre esta parte da história. Havia pouquíssimos registros dessa chegada e da vida do negro africano na colônia. Ao longo dos anos, vários pesquisadores, professores, arqueólogos e curiosos passaram por aqui. Foi um período de troca de informações. Com eles aprendemos muita coisa – comenta Ana Maria.
Escavações na casa de Merced

Vinte e oito ossadas foram encontradas e mostram, de acordo com análises arqueológicas, que foram enterrados ali adolescentes de 12 a 18 anos e crianças de 3 a 10 anos. A maioria pertencente ao sexo masculino e entre 18 e 25 anos de idade. Todos os ossos, incluindo crânios, costelas e dentes estão quebrados e isso mostra como os corpos dos escravos eram tratados. Para Ana Maria, o IPN é uma grande forma de valorizar a cultura negra.
- Fico muito emocionada e feliz por fazer parte disto. Não desenterramos apenas o cemitério, mas sim toda uma história de dor, luta e sofrimento. Anos de negação de um passado que fez com que o País se tornasse o que é hoje. Vejo um movimento de resgate. Pessoas preocupadas em reestabelecer contato com uma parte da história que pouco se sabia – conta Ana Maria.
A visão do Rio sob o olhar dos escravos


Ao chegarem da África, os escravos eram amontoados em galpões e depois expostos para serem vendidos. Quase metade dos negros que desembarcavam no Rio neste período, morria antes de quatro anos. Devido às intensas atividades comerciais, negreiras e portuárias, as regiões do Morro da Conceição e do Morro do Livramento se encontravam abarrotadas.
As atividades escravistas comerciais foram então alojadas na região do Valongo, que já lá era mais arejado e menos incômodo. Em 1821, o Cemitério dos Pretos Novos já estava rodeado de casas e os moradores começaram a reclamar com D. Pedro e com o governo sobre as péssimas condições de higiene e o mau cheiro que exalava dos corpos.
De acordo com documentos achados no Arquivo Geral da cidade, o último sepultamento no Cemitério dos Pretos Novos aconteceu somente no dia 13 de março de 1830.





Os negros eram jogados direto na terra, uns sobre os outros e sem nenhuma cerimônia religiosa. Para os escravos que sobreviviam, ver aquele desrespeito com os corpos era um sofrimento emocional enorme, já que os cadáveres eram jogados em locais inacessíveis. De acordo com a crença deles, o morto que não fosse sepultado não tinha como se reencontrar com seus ancestrais em outro plano, e dessa forma, os vivos perdiam a proteção dos antepassados no difícil cotidiano e nas guerras.

A moda em dois tempos


Conheça os trajes dos cariocas no Centro do Rio, hoje e na época em que as escravas eram majoritárias na região


Fabrizzia Milione

 

A expressão “escravos da moda” é bastante popular, mas, se fizermos um jogo de palavras e invertermos o sentido, brincando  com a língua portuguesa chegaremos a uma “moda escrava”. Em hipótese alguma a tendência do ano aponta para o trabalho explorado, mas ao produto da roupagem real e negra que desfilou a cara de uma época.
Desde o século XVI, Gamboa e Saúde constituem algumas das “passarelas” históricas do cenário nacional. Se dermos uma conferida no Centro e adjacências do Rio de Janeiro atual, testemunharemos a transformação no vestuário dessa gente que reescreve o comportamento e o visual do Morro da Conceição, antigo Valongo, e da Rua Pedro Ernesto, conhecida anteriormente como Rua da Harmonia.
Atualmente, o que dita à moda nos recantos dessa região da cidade são, majoritariamente, tecidos leves e roupas por vezes curtas, alongadas e esvoaçantes, que não economizam no colorido ou estacionam no neutro, conhecido como “basiquinho”. Por um lado, registramos braceletes de fivela larga, laços, babados, rendas, bordados, vidrilhos, franzidos e adereços que abusam da madeira e do coco, marcando alguns dos itens que nos fazem ter a sensação de déjà vu com as gravuras dos livros de história. Por outro, damos de cara com as lycras e estampas modernas que colidem com a moda que imperava nas tradicionais ruas da cidade.
Pintura atual encontrada no Morro da Conceição

‘O que veste o Centro’

Após subir a ensolarada Pedra do Sal numa manhã de sábado, a diarista e moradora da Conceição há cinco anos, Sandra Oliveira, voltava das compras com o típico shortinho verde fluorescente das comunidades, quando confirmou a salada de estilos que circula diariamente pelas entradas e saídas do morro.
 – Aqui você encontra de tudo. Das bijuteriazinhas aos panos brancos e até esses turbantes de religião que estão pintados na subida da Pedra. É tudo muito simples. No dia do samba, tem tanto o rapaz com o short de tactel, quanto àqueles parecidos com os antigos malandros e as velhas guardas das escolas — disse ela, aos 63 anos.  – O importante é que depois de tanto tempo o morro ainda tem o estilo, – completou com um largo sorriso. 
Uma moradora de Copacabana, que caminhava pela Pedro Ernesto e preferiu manter o nome em sigilo, contou que costuma visitar com frequência o local e que procura trajar aquilo que considera “a cara” da região. De chapelão e combinações claras e nude, mais aproximadas à cor da pele, a visitante da Zona Sul resgatou tons de panos semelhantes aos amarrados ou costurados no corpo das escravas antes da vinda da realeza portuguesa para o país, que eram modificados em razão do trabalho.
 Uma boa dica para ficar por dentro do assunto é garimpar os registros da exposição “Mulheres reais – modas e modos no Rio de D. João VI”, realizada na Casa França-Brasil, Centro do Rio, em 2008. Nela, descobrimos um pouco de como o país aprendeu que se vestir e como representa um exercício de criatividade. Moderna, cafona, “in”, “out” ou “démodée”, a cronologia do estilo na estampa feminina reflete as transformações sociais ainda vivas na sociedade brasileira.


O guarda-roupa do país há mais de 200 anos
As roupas das escravas eram basicamente feitas de farrapos, panos e remendos que costumavam sofrer modificações devido ao trabalho duro das negras. Modelos diferentes surgiam em razão da necessidade, como na hora da lavagem de roupas em que peças mais curtas de saia começaram a ser trabalhadas para fugir do banho de água nos trajes. O curto não conferia tom de vulgaridade, já que no costume africano as peças servem para adornar, não para esconder o corpo.

Trajes das escravas no trabalho. Ilustração de Rugendas

Apenas com a chegada da realeza portuguesa e a Abertura dos Portos, em 1808, que os produtos europeus como joias, chapéus, bolsas e broches passaram a fazer a cabeça dos que aqui viviam. Celebrações da corte funcionavam como as atuais vitrines de lojas renomadas diante dos olhos das escravas que já começavam a absorver um tino comercial na venda de objetos ligados ao novo visual.
No contexto, surgiu a superstição no uso de amuletos e adereços mágicos para atrair dinheiro e proteção. Eram comuns as fusões do estilo africano ou então as vestes dadas pela patroa, ainda que inferiores. As negras que assumiam papel de domésticas serviam de reflexo do poderio social de seus donos. Nas ruas, o estilo se assemelhava ao das brancas, quando, muitas vezes chegavam até a herdar jóias de suas patroas.

A distância do jeito colônia de ilustrar o país estava anunciada no hibridismo, muitas vezes exagerado, entre as raízes africanas e as heranças europeias. A moda agora estava nas mãos, tesouras e ateliês do futuro.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Reforma urbana é objetivo do Porto Maravilha


   Projeto da Prefeitura do Rio busca a reestruturação da área portuária do Rio

 Juliana Muniz

A urbanização da cidade do Rio de Janeiro, no início do século XX, marcou a gestão do então prefeito, Pereira Passos. As reformas foram inspiradas na reforma urbana, ocorrida em Paris, a que ele assistiu quando residia na cidade em meados de 1860. As mudanças promovidas por Passos buscavam melhorias sanitárias e urbanísticas. Após esse período, conhecido como “Bota-abaixo”, o Rio se tornou uma cidade moderna, e ganhou o título de Cidade Maravilhosa. Entre as obras estão a Praça XV e a Avenida Central, atual Rio Branco.
Cem anos depois, o projeto Porto Maravilha transforma de novo a cidade. Trata-se de um programa bilionário de reurbanização da região portuária da cidade do Rio. O plano do governo tem como objetivo reconstruir essa zona, reestruturando vias públicas, rede de água e esgoto e museus. Busca-se qualificar o local, que vem sofrendo degradação desde os anos 1960. Ao todo, serão reurbanizadas uma área de cinco milhões de m². A previsão é que toda a região seja modificada até 2016.
A região portuária é composta pelos bairros da Gamboa, Saúde, Santo Cristo, Caju e Centro. Entre as reformas, está a recuperação do Jardim Suspenso do Valongo, que foi construído em 1906, durante as reformas de Pereira Passos. Na encosta do morro da Conceição, antigo morro do Valongo, o Jardim é outros símbolo do bairro da Saúde, assim como o Cais do Valongo, da Imperatriz e a Pedra do Sal.
Jardim do Valongo sendo restaurado. Foto O Globo

Uma das grandes obras desse projeto é a demolição do Elevado da Perimetral. Na época na qual foi construído, o elevado tinha como objetivo ligar as zonas Sul e Norte, e o Aeroporto Santos Dumont ao bairro do Caju. Hoje, a demolição dessa via causará um melhoramento do trânsito na região. O viaduto ajuda na degradação da área sendo que a sua remoção será essencial para o resgate do patrimônio da área portuária.
Para estimular a densidade populacional no município, que é a menor da cidade, a Prefeitura do Rio lançou um conjunto residencial na área do porto. Servidores municipais terão prioridade na compra dos 1.333 apartamentos, que estarão distribuídos em sete torres; cada uma com 35 andares. Os apartamentos serão usados para acomodar jornalistas e árbitros nas Olimpíadas de 2016.

Museu de Arte do Rio

Os programas Porto Maravilha Cidadão e Porto Maravilha Cultura irão complementar o processo de reurbanização da área. Um dos projetos já concretizado é o Museu de Arte do Rio (MAR), na Praça Mauá. O museu é composto por dois prédios: o Palacete Dom João VI, que abriga as salas de exposição, e o antigo terminal rodoviário, que dá espaço à Escola do Olhar.

O Museu do Amanhã, que ficará em frente ao MAR, é projeto do arquiteto espanhol Santiago Calatrava. A sua inauguração está prevista para 2014.

Pedra do Sal: um lugar democrático


Frequentadores descrevem uma das rodas de sambas mais antigas do Rio
                                                                                                             
Por Larissa Kurka

Pela rua Argemiro Bulcão, no século XVIII e XIX, era comum ao final do dia se ver pelo chão sal espalhado. Hoje, o que se vê são pedaços de cascas de ovos coloridos e limão revelando que no dia anterior certamente houve no bairro da Gamboa, no Centro, o tradicional samba da Pedra do Sal regado a caipirinha e o famoso rosinha.
Reduto do samba a Pedra do Sal antes era local de reunião de estivadores que após ao trabalho se juntavam em volta dos sambistas para relaxar e cantar. Também foi responsável por revelar grandes talentos como Pixinguinha, Donga, Heitor dos Prazeres e João da Baiana.
O samba não morreu e atualmente tem seu encontro com os amantes do ritmo às segundas e sextas-feiras. Pelas paredes se vê a afirmação de uma história construída pelos negros e figuras tradicionais da nossa cultura como o chamado malandro. Há artes retratando Cartola e exaltando o samba no local. Assim como mulheres negras trajando roupas de baianas, fazendo referência as que ajudaram a propagar o cadomblé, como a tia Ciata.
Eles retratam não só outra época, mas também o presente com a contínua atividade de preservação de um dos ritmos responsável por uma das identidades brasileiras, o samba.
Curioso por ser um local que atrai pessoas de todas as classes sociais é considerado um espaço  democrático. Às sextas, é comum encontrar um engravatado por lá assim como pessoas que procuram um ambiente agradável para curtir um bom samba e uma cerveja gelada, como o ator Luiz Fernando Pinto descreve.
—  Pelo menos uma vez ao mês, eu venho à Pedra do Sal. Até porque trabalho perto e o lugar é superdemocrático. Não é lugar de classe, frequenta todo mundo.
O local, que fica aos pés do Morro da Conceição, também reúne os moradores que, apesar do barulho, dizem gostar do que veem na porta de casa. Este é o caso do metalúrgico Jorge Santos, 50 anos, que mora no prédio 37, em frente à Pedra do Sal.
  Gosto do samba. Quando vim morar aqui, a roda  já existia. Então já sabia do barulho. Mas os moradores gostam de participar e interagir com pessoas de todos os lugares do Rio.
Ele conta que a prefeitura realiza o serviço de limpeza normalmente e que os que moram no local não têm do que reclamar neste sentido.
Sambistas na Pedra do Sal. Foto: Riotur

A enfermeira Ludmila Stefe diz que o diferencial da Pedra do Sal é a presença de sambistas de outrora, do chamado samba de raiz.
—  Gosto de lá por tocar samba antigo de compositores como Cartola e Candeia. Além disso, é frequentado por moradores antigos, que viveram esta época e muita gente que pesquisa o samba. É um local onde se pode reconhecer a nossa história.
Mas Ludmila e seu amigo Luiz Paulo Neto, estudante de história, dizem que apesar do lugar ser um dos poucos que costumam tocar o estilo no Rio,  isso vem se perdendo nas noites de sexta-feira. Muitas pessoas pedem sambas mais modernos, como os de Zeca Pagodinho, fugindo um pouco dos cantores tradicionais.
— Essa geração nova não quer ouvir Clementina de Jesus. A galera pede coisas mais novas e aí vai morrendo a tradição.
Para quem não sabe, Clementina foi uma cantora de samba que começou sua carreira aos 62 anos. A idade avançada da empregada doméstica não foi nenhum empecilho para o sucesso. O interessante foi que,  além de cantar partido alto, Clementina recuperou antigas canções africanas que estavam se perdendo, tais como o jongo e os cantos de trabalho.
Outro ponto que incomoda Ludmila e Luiz Paulo é que a quantidade de gente na Pedra do Sal. Como o espaço é pequeno fica difícil se movimentar. É a opinião que também compartilha o morador Jorge Santos.

Apesar disso, eles reconhecem que o local ainda preserva a sua essência às segundas-feiras. É um dos poucos lugares onde ainda se pode encontrar o samba de raiz.